Muitas vezes ele vivia, noutras mendigava.
Quando criança, olhava o céu negro rajado de cinza pela janela do quarto como anuncio da tempestade monumental que levaria a tona seus problemas, e indagava a si mesmo, como alguém com tão pouca idade poderia ter tanto em conta?
O fogo, sempre presente nos sonhos, fazia com que aquele cordel encantado aparece em imagens cinematográficas daquele período mudo. Somente aos poucos, os sons murmurantes que se esvaiam entre seus dedos, faziam dele uma pessoa melhor. O silêncio é realmente uma arte, um escombro dum céu viajante. Tudo informava que aos poucos sua alma já partira dali.
Pensava baixinho, para ninguém ouvir, que o corpo com o tempo haveria de se rebelar. A fúria do amor pela liberdade haveria de brotar da candura dos sonhos de uma vida melhor.
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Madrugada. Otto então se levantou e foi à cozinha do casebre. Água, sol e ar eram as únicas coisas que ele encontrava em abundância na sua vida. Tudo o mais era escasso, senão inacessível. Um mar de desejos contido pela pobreza.
Era noite! Portanto, só estavam disponíveis o ar e a água. Ele os verteu com tal intensidade, ao ponto que seu corpo magro, preenchido de dor d’agua, batendo no estômago vazio, transmutava-se em ruídos. Isso proporcionou cólica forte e ao voltar para a cama só conseguiu dormir encolhido.
Agonizando, olhou para o céu, como se com o toró a cair fosse possível abraçar a imensidão...
Ele dormiu.